Abaixo, trechos do livro A Escuta e o Silêncio. Lições do Diálogo na Filosofia Clínica, 2ª ed. revista e ampliada. Goiânia: Ed. da UCG, 2010.
EM TERMOS TEÓRICOS...
“A Filosofia Clínica é um novo método de se fazer terapia, fundamentado nas teorias filosóficas acadêmicas, surgido, na década de 80, da prática clínica do filósofo Lúcio Packter na Europa e no Brasil. Uma terapia filosófica muito distante do ranço moral do mero aconselhamento e que, por não conceber quaisquer doenças ou distúrbios comportamentais de natureza exclusivamente psíquica, tipologias abstratas, estruturas inflexíveis e universais etc., igualmente se afasta do conceito psicológico de cura.
“Para além ou aquém das causas orgânicas, de raízes neurológicas, a Filosofia Clínica não cura, cuida. Com ênfase, trata-se de uma práxis filosófica e pode ser tomada como o mais radical exercício prático de alteridade já elaborado até hoje.
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“Particularmente, a Filosofia Clínica investiga o conceito de psicoterapia, buscando também um novo olhar sobre a ética nas relações com o outro, aquele com quem se partilha os cuidados terapêuticos. Seu esforço de reconduzir o pensamento a respeito, entretanto, não faz dela uma filosofia da psicologia, ainda que discuta métodos e fundamentações. Em seu esforço, a Filosofia Clínica possibilita a recondução do entendimento e da pesquisa tanto quanto inaugura métodos práticos de trabalho.
“A Filosofia Clínica é uma práxis de alteridade, que trouxe às psicoterapias todas as visões de mundo já pensadas nesses 2.500 anos de filosofia. Por se tratar de uma autêntica reflexão aberta, crítica a si mesma, ela é capaz de entender a subjetividade de quaisquer indivíduos, sem fugir a uma só manifestação existencial singular de ninguém. Novas filosofias que ainda hão de surgir, endossando possibilidades, só intensificarão seu grau de escuta e o diálogo com as diferenças. Ademais, sempre houve um caráter terapêutico na filosofia, um autêntico cuidar do ser na formação humana, desde a Paidéia dos gregos antigos, quando ainda não havia a secção moderna a separar teoria e prática. Seria um grande erro pensar que a Filosofia Clínica não é filosofia simplesmente por acreditar que ela tem posse das verdades psicológicas, dos mapeamentos e diagnoses das psicologias, como se ela se pretendesse científica. A Filosofia Clínica procura, antes, desfazer falsos problemas existenciais, derivados de uma certa forma de pensar as teorias da psique humana. Que a atividade filosófica se torne eficaz e tenha um alcance terapêutico em nada implica quaisquer formas de cura, embora possa haver coincidência em alguma comparação. O que faz o filósofo clínico é outra coisa: entender a natureza dos problemas existenciais daquele que o procura e ajudá-lo em seu livre-arbítrio, ante as múltiplas e difíceis escolhas da vida. É o caráter epistêmico, pedagógico e ético dessa filosofia que lhe permite um método terapêutico”.
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“É bem sabido que a verdade das teorias sempre precisará de teorias da verdade, pois o princípio do erro está no julgamento e não nas coisas julgadas. Todas as importantes certezas que herdamos, se não equivocadas, estão insuficientemente corretas para decifrar os mistérios da alma humana. Se compararmos umas ao lado das outras, as grandes teorias sobre o homem elaboradas na história anular-se-iam em contradições ou mostrar-se-iam incompreensíveis e paradoxais ao mesmo tempo. Assim, com que método a Filosofia Clínica é capaz de reunir todas as correntes teóricas como instrumentos terapêuticos a serviço de uma ética da escuta? E isso de tal forma que um único filósofo seja apto a escutar e compreender a infinitude de visões de mundo existentes como se a elas pertencesse. Seria possível tamanha plasticidade no acolhimento e no trato das diferenças humanas?
“Com acerto, se desconsiderarmos as concepções de verdades em disputa como “conteúdos” do real ou substâncias essenciais e, de outra maneira, as compreendermos simplesmente como fenômenos, perspectivas daquilo que nos aparenta ser ou múltiplas categorias de entendimento da mesma realidade, isso tornará possível a comunicação entre diferenças teóricas tão afastadas entre si. Depois de filósofos como Kant e Husserl, a questão das verdades deixou de ser um problema das coisas em si mesmas e se tornou um tema da percepção humana. Ou seja, diferentes percepções do mundo podem coexistir e ser devidamente compreendidas nos níveis em que se organiza a estrutura do pensamento humano. E foi precisamente isso que Lúcio Packter fez: localizou as principais antropologias filosóficas da história, o que se pensou e se definiu sobre o ser humano, e, dessa forma, estruturou em trinta tópicos um diálogo entre os vários estratos da inteligência, elaborando um conjunto infinito de possibilidades".